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segunda-feira, 29 de julho de 2013

MEMÓRIAS DO SEGUNDO PERÍODO

Saio da faculdade exausto, depois de uma terrível prova. Depois de esperar por alguma coisa que nunca chega. Vou para meu “retiro espiritual”, pego meu carro e subo até o Mangabeiras, chego na praça do Papa. Compro um refrigerante e sento de frente para a cidade. Começo a esperar. Não sei bem o que. Mas olhar para essa bela vista me dá a certeza que, o que estou esperando vai chegar, vai acontecer.
Olho para o lado e vejo um senhor bem vestido que não para de olhar o relógio. Mais um esperando… Mas certamente deve ser uma pessoa. Continuo bebendo meu refrigerante, esperando o tempo passar, esperando a latinha acabar… O homem continua olhando insistentemente o relógio e espera…
O tempo passa e ninguém chega. Nada chega. Só o frio e a curiosidade. Penso na bela mulher que essa figura deve estar esperando tão ansiosamente.
Depois de algum tempo percebo o tal homem olhando para um ponto fixo na rua lá em baixo. Abre um largo sorriso. Olho para o mesmo ponto mas não vejo ninguém. Ele olha para o relógio novamente. E ainda com um sorriso no rosto se levanta, entra no seu carro e vai embora.

O que ele estava esperando chegou? Com certeza que sim. Não sei o que era, mas percebi que não sou eu o único maluco desse mundo a subir num dos pontos mais altos da cidade, sentar em algum lugar e esperar.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

EU VI O CAMINHO

Eu quero me tornar a escuridão
Me abrigar nas sombras
Quero deixar minha taça vazia
Abandonar o mundo
Arrancar quase tudo que há dentro de mim
E deixar só uma centelha
Quero não desejar
Eu não quero mais ser

Entre o sim e o não, escolhi o meio
Quero aprender a não olhar para trás
Quero tirar os sapatos e sentir as pedras sangrarem meus pés
Quero beber o sangue
Sentir o choque
Ficar tonto
Quero vomitar
Flutuar no oceano e me tornar inútil, estéril, deserdado, incompleto
Um vazio

E quando achar que tudo está perdido
Abrir os olhos e contemplar o paraíso
Esse é o caminho

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

MARDI GRAS


Lua nova, no céu se aproxima

Chamando todos a se lançarem às ruas e avenidas

Os escravos foram libertados

O rei, posto ao cargo

E é nessa conjunção cósmica, quase uma conspiração, em que todos acreditam

A fantasia é posta sobre a fantasia e a máscara sobre as máscaras

Todos seguem felizes, embriagados, velados

Do meu lugar assisto tudo nauseado

Aproveitemo-nos utentes, pois as privações começarão adiante

No final todos estarão caídos pelo chão

Caídos a esperar socorro

E a esperar a lua cheia quando Outono chegar

domingo, 6 de janeiro de 2013

O PLANTIO

Há muito tempo eu te deixei para trás.
Ainda jovem, pequena, frágil.
Fiz tudo o que me ensinaram.
Preparei o terreno, não me esqueci da água.
Pensei na sombra, pensei no sol.
Tudo certo. Tudo para você crescer.
Me virei e fui embora, sem saber o que aconteceria no próximo instante.

Como você deve estar agora?
Será que cresceu?
Será que todos já podem sentir o seu perfume?
Será que o sol fez a sua parte?
Tenho tantas dúvidas...

Mas eu voltarei.
Ansioso por lhe encontrar.
Será que vai me reconhecer?
Eu certamente irei lhe reconhecer.
Tomara que você esteja grande, forte, bela e perfumada.
Minha rosa que deixei para trás, mas que nunca esqueci.
E nunca te esquecerei.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

QUEM SABE UM DIA?

Eis que cheo ao trigésimo terceiro andar.
Olho pela janela e vejo as pessoas tão pequenas. Todas iguais.
Andando pela rua com celulares modernos, apressadas.
Eu apenas curto o visual aqui de cima.
Com medo de altura.

O suor ainda escorre pelo rosto.
As mãos ainda trêmulas.
A voz embargada.
Mas me sinto bem.
E após dez anos inteiros meu coração balança.
Juntamente com minha incrível vontade de pular.
Quem sabe um dia...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

NO ESCURO

Eu não sou bem vindo.
Por isso fico aqui escondido apenas a olhar.
Consigo sentir o aroma das flores.
Consigo perceber a alegria nos rostos.
Mas fico aqui sem que ninguém saiba.
Ou senão eu já teria sido capturado.

Eu não sou bem vindo.
Mas gosto dos sorrisos.
Gosto dos olhares.
Gosto de imaginar o sabor que teria se pudesse provar.
Prefiro permanecer longe da luz dos postes.
Longe dos carros.
Longe do tumulto da multidão.
Certo que o meu lugar está lá.
E quando ninguém mais puder me ver você acreditará que eu serei feliz.

terça-feira, 27 de março de 2012

ENTREVISTA COM RENATO RUSSO



Está é a história de um jornalista que foi levado por um anjo, pois foi pautado para entrevistar Renato Russo no céu. Mas quando chegou foi imediatamente barrado por São Pedro que disse: “Ele não está aqui, está no limbo, lugar de poetas e pensadores como ele”. De repente uma forte ventania carregou o jornalista para o limbo.

Chegando lá começou a procurá-lo. O encontrou sentado debaixo de uma grande árvore de largo tronco e raízes que saíam do chão. Ele estava com seu inseparável violão ensaiando algumas letras.

A entrevista foi breve mas interessante. Ele respondia a todas as perguntas cantarolando e tocando aquele que dissera ser o seu maior amigo. Foi mais ou menos assim:



-Bom dia Renato, o que você está achando da crise na Grécia?

-”Que país é esse! Que país é esse”!



-E o que você está achando do atual momento político brasileiro?

-”Um dia pretendo tentar descobrir porque é mais forte quem sabe mentir”.



-Você está gostando da preparação da seleção brasileira para a copa do mundo de 2014?

-”Será que vamos conseguir vencer”?



-E o país? Vc acha que ainda tem jeito?

-”Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho”.



-A crescente violência nas favelas do Rio de Janeiro e nas grandes cidades te preocupa?

-”Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito… tentei chorar e não consegui”.



-Você não se sente muito sozinho debaixo dessa árvore o dia inteiro?

-”Me dizem que a solidão até que me cai bem”.



-Qual foi a primeira coisa que você disse a Cássia Eller quando ela chegou aqui?

-”Vamos descobrir o mundo juntos baby, quero aprender com o teu pequeno grande coração…”


-Para finalizar, diga alguma coisa para o povo brasileiro tão sofrido e tão saudoso de tuas letras.

-”É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.



-Bom, tenho que ir, adorei a entrevista…

-”Não vá embora, fique um pouco mais…”



-Preciso entregar essa matéria cedo para ser publicada amanhã, de qualquer forma obrigado pela entrevista.

-”Mas obrigado por pensar em mim.”



27 de Março de 2012. Renato Russo completaria 52 anos. Parabéns trovador solitário!!!!!